:: A Solidão como consequência ::
Arthur Tuoto


Um estudo da incomunicabilidade no cinema de Tsai Ming-Liang.

Usando sempre a cidade de Taipei como pano de fundo, Tsai Ming-Ling vem traçando uma geografia sentimental na história do cinema contemporâneo que merece grande respeito e atenção. O diretor se limita sempre ao mesmo assunto, mas o que poderia soar como lugar comum é reinventado a cada novo filme. A solidão e suas conseqüências. Os caminhos da incomunicabilidade entre personagens banais, em sua maioria patéticos, mas que por alguma misteriosa razão sempre nos parecem transmitir uma ternura sem igual.

Nascido na cidade de Kuching, na Malásia, Tsai formou-se no departamento de Cinema e Drama da Universidade de Taiwan. Antes de lançar o filme que o faria internacionalmente famoso, ele trabalhou como produtor teatral e diretor de TV. Em 1994 seu segundo longa, "Vive L’Amour", ganhou o Leão de Ouro de melhor filme e o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza, desde então Tsai começou a receber o reconhecimento que merecia.

O sentimento de reclusão que é definido, não só pelo cinema como também por outras áreas intelectuais e de cultura pop, como "solidão urbana" encontra na obra de Tsai Ming-Liang um de seus estudos mais instigantes. Obviamente que por um caminho visual/artístico livre de definições exatas, mas completamente estruturado e, acima de tudo, maduro, como é de praxe do diretor. Devido aos temas bastante áridos e profundos, Tsai Ming-Liang começou a ficar conhecido como “Robert Bresson de Taiwan”. E levando-se em conta sua mise-en-scène e seu rigor formal, a comparação com o diretor francês é inevitável.

A origem desse sentimento que nos remete a uma solidão coletiva nos ambientes onde se passam os filmes de Tsai nasce antes de tudo da falta de comunicação entre seus habitantes. Uma incomunicabilidade sentida entre personagem e meio, assim como entre os próprios personagens. Desde o jovem Hisao-kang (interpretado por Lee Kang-Sheng, ator-fetiche do diretor) em “Vive L’Amour” (1994), um tímido vendedor de urnas funerárias que rouba a chave de uma corretora de imóveis e passa as noites sozinho em um apartamento vazio de Taipei. O mesmo Hisao-Kang (Lee Kang-Sheng interpretando o mesmo personagem) em “O Sabor da Melancia” (2005), o mesmo tímido agora não-tão-jovem ganha a vida como ator pornô ao mesmo tempo em que tenta controlar sua paixão por Shiang-chyi (interpretada por Chen Shiang-Chyi). Paixão essa já iniciada por ambos personagens-atores em “Que horas são ai?” (2001), aonde Hisao-kang trabalha nas ruas de Taipei vendendo relógios – antes de se aventurar na carreira pornográfica – e se encanta por Shiang-chyi quando esta procura por um relógio quer marque dois fusos horários, devido a uma viagem que ela planeja para França. Depois disso Hisao-kang percorre as ruas de Taiwan mudando o horário de todos os relógios que encontra para o fuso de Paris, em paralelo vamos acompanhando Shiang-chyi em uma difícil estadia na capital francesa. A saga dos dois jovens parece ter finalmente uma coclusão, no mínimo inusitada, mas paradoxalmente doce, em “O Sabor da Melancia”, quando a relação entre ambos exala uma intimidade enigmática mas que comparando com os outros filmes é mais plena do que nunca.

Desde "Vive L’ Amour" Tsai vem construindo seu estudo dentro desse mesmo universo, aonde personagens e ambientes podem parecer iguais mesmo depois de passado alguns anos, mas cada filme é como um novo caminho gradualmente denso e perpetuado por uma sutil desilusão. Desilusão essa que em um primeiro momento soa melancólica, mas que encontra sua plenitude em uma solidão meditativa, quase como um reflexo despretensioso do cotidiano de uma Taiwan fria e contaminada por um desafeto alheio. Os personagens de Tsai tem a função de sobreviver neste mundo, o que para eles já é bastante complicado e desgastante, mas que ao final de um novo caminho surge algo que se assemelha a um entendimento universal (redenção?), seja chorando copiosamente por dez minutos ininterruptos em uma praça pública, seja esporrando na garganta da pessoa que foi a causa disso tudo.

“Eu não quero dormir sozinho” (2006), o último filme do diretor, quebra um pouco a trajetória iniciada em seu universo desde “Vive L’Amour”. Pela primeira vez Tsai filma em seu país de origem, a Malásia, um ambiente ainda mais hostil e de certa maneira estrangeiro aos olhos do mesmo Hisao-Kang, que agora não passa de um sem-teto que em momento algum revela qualquer indício de seu passado.

Em tempos aonde o cinema contemporâneo vem tratando a solidão como um ideal a ser apenas vivido/contemplado sem uma finalização concisa, vide “Brown Bunny” e “Last Days”. Tsai surge como a alternativa mais sincera e madura disso tudo. Gus Van Sant tentou definir um anti-herói com uma estrutura forçada justamente para quebrar esse ideal, o que ficou completamente explícito e consequentemente desonesto. Já o ideal de Gallo é ele mesmo, e o seu maior problema foi tentar justificar esse ideal logo ao final de seu filme. Tsai Ming Liang não trata a solidão como um ideal, mas sim como uma conseqüência, seus personagens não passaram por grandes eventos, não possuem grandes problemas, eles apenas estão sozinhos e isso já é grande o suficiente. A evolução desse diretor e de seu estudo devem ser tratados não só como simples filmes sobre uma certa solidão urbana universal, devem ser vistos como uma tentativa de humanismo em uma arte aonde muitas vezes a degradação pessoal se torna gratuita e simplesmente estética.

Arthur Tuoto é cineasta e crítico de cinema, trabalha com roteiro, video-arte e manipulação de imagens em geral. Mora em São Paulo, lidera o grupo Zerkalo Filmes (http://zerkalofilmes.blogspot.com) e mantém um canal no YouTube (http://www.youtube.com/arthurtuoto) com seu trabalho.