Um
cinema de fronteiras, físicas e sentimentais.“Código
46” (2003), um filme pseudo-futurista de Michael Winterbottom,
tenta mesclar as duas coisas. Não tem um resultado que
me agrada, mas existe algo em sua tentativa que me cativa. Quando
a personagem de Samantha Morton narra, no começo do filme,
o primeiro encontro com um possível estrangeiro, aquilo
se torna pessoal e, de certa forma, eu ignoro a irregularidade
do filme e me entrego a esses sentimentos, justamente por me identificar
demais com eles.
“Código
46” narra uma relação de distância que
tenta ser plena em sua curta existência. Os motivos da ruptura
devem-se aos quesitos futuristas do filme, que aqui vamos ignorar
- seja isso bom ou não. O que me interessa é essa
plenitude curta, essa distância presente de maneira quase
obsessiva na minha própria realidade. Pequenas relações
à distância que de nenhuma maneira são menos
intensas por isso, pelo contrário, eu até mesmo
consigo encontrar uma intensidade paralela nesses quilômetros
e quilômetros que me fazem distante. Esse amor torto de
“Código 46” me parece, às vezes, um
amor muito mais honesto que esses longos e intermináveis
romances de certas sagas do cinema clássico. Justamente
porque no filme de Winterbottom existe uma gama de possibilidades
a cada segundo, dando uma impressão de fragilidade aos
personagens. O que, conseqüentemente, faz com que surja uma
maior identificação com o espectador, visto que
todos nós estamos a mercê dessas possibilidades,
novas interações, todo os dias de nossas vidas,
mesmo nos esquecendo disso em certos momentos.
Possibilidade
que me remete a “Encontros e Desencontros” (2003),
de Sofia Coppola. Qual é o principal assunto desse filme,
se não a possibilidade de uma nova interação?
Outra vez física (com o ambiente) e afetiva (com outra
pessoa). Charlotte está distante do seu país natal
e distante do seu companheiro atual. A distância gera medo,
mas gera possibilidade. Charlotte está perdida, mas nem
por isso desesperada, vai de encontro a essa nova possibilidade
e a aceita carinhosamente. Diferente da maneira que a maioria
das pessoas trata essa distância atualmente, pois vêem
nela um significado de não-relação e esquecem
das possibilidades- aquilo que faz tudo acontecer.
A
maneira quase destrutiva com que Sam Shepard se relaciona com
as mulheres de seus contos, que ainda assim tendem a ir por um
caminho doce (mesmo quando pessimista) em sua conclusão,
nunca foi melhor transcrita para o cinema do que em “Paris,
Texas” (1984), de Win Wenders. A fronteira aqui não
é exatamente entre um homem e sua mulher, ela atinge outros
níveis, é uma fronteira entre um homem e seu território,
seu mundo. Ao longo de sua vida, Sam Shepard nunca conseguia ficar
muito tempo em um mesmo lugar. Longas viagens pelos EUA, pequenas
relações, fragmentos de uma angústia que
se refletia na estrada, ou seja, uma distância por opção.
Claro que talvez a única opção para a personalidade
desse homem - coisa que vemos claramente em “Paris, Texas”
e, principalmente, em sua carreira literária e dramatúrgica.
Mas, ainda assim, toda uma vida distante, um mundo à parte
e cheio de pequenos hábitos característicos. A mesma
impressão deslocada, a mesma ameaça feminina. Finalmente
um certo entendimento dessa solidão selvagem por uma contemplação
externa. Shepard, ao olhar para si mesmo, nos ensina que a distância
e a solidão são fatores da natureza. O que nos faz
humanos é esse deslocamento, praticado com bom senso e
aberto a possibilidades. Não obstante a essa possibilidade,
Sam Shepard se encontrou com Jessica Lange depois de toda essa
jornada, o que talvez o tenha salvo dele mesmo.
Em
“Brockeback Mountain” (2005), de Ang Lee, temos uma
distância em forma de complexo, que cria fronteiras morais
na relação entre dois homens. Ennis Del Mar não
está em nenhum lugar e não é nada. O complexo
de Ennis é justamente seu amor por Jack. Sendo assim, Ennis
só consegue ver seu amor (uma camisa ensangüentada)
e o lugar nenhum (uma montanha), resultando no seu complexo, uma
maneira distante de enxergar o mundo. Ennis compôs o plano
final que define sua existência e sua tragédia, num
filme que tem na moralidade a distância que condena duas
vidas. Aqui a distância entre Ennis e Jack foi fatal, a
armadilha já estava feita.
Se
em um primeiro momento a distância pode intensificar o fracasso
de certas relações, seja pela incomunicabilidade
ou pelas fronteiras sentimentais, em um estudo mais profundo ela
surge como uma solução individual para um amor próprio
que se torna um amor pelo outro. Sam Shepard aprendeu a amar fugindo.
Charlotte foi entender as possibilidades da distância do
outro lado do mundo. Ennis e Jack nunca foram plenos, não
devido a eles mesmos, mas sim à distância moral-
que em certos casos pode destruir qualquer coisa. Por isso a culpa
não é da distância, o que me mantém
longe de você é apenas terra, é um obstáculo
físico, de relativa fácil superação.
A culpa toda é nossa e da maneira de lidar com essa distância
que nos acomete e que é absolutamente inevitável.