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Arthur Tuoto


O apelo do trágico na cultura audiovisual norte-americana.

Eric Harris e Dylan Klebold, os jovens assassinos do massacre da escola de colombine, foram o apelo fundamental para Gus Van Sant salvar sua carreira, realizando uma reflexão concisa sobre a estrutura quase hierárquica das “high-schools” norte-americanas e as mentes marginalizadas pela mídia/internet/entretenimento. Gus também trouxe mundialmente em “Elefante” (2003) um novo gênero de narrativa em seu cinema - que já havia inaugurado timidamente em seu trabalho anterior, “Gerry” (2002). “Elefante” é talvez uma obra ideal: tem um apelo engajado discreto, mas de extrema importância, uma direção instigante e quase sem precedentes no país de origem do diretor.

O inglês Paul Greengrass obteve relativo sucesso com seu primeiro longa de destaque, “Domingo Sangrento” (2002). Nele, o diretor narra de maneira documental o massacre do dia 30 de janeiro na cidade de Derry, quando, após um simples protesto pelos direitos humanos, tropas inglesas mataram, sem motivo aparente, 13 pessoas. Depois de realizar, por um estúdio norte-americano, “Supremacia Bourne” (2004), uma tentativa falha e óbvia de reviver sua direção realista em um filme para a indústria, surge o incrível “Vôo United 93” (2006): de uma maneira absurdamente realista, Paul Greengras narra em tempo quase real os acontecimentos do vôo 93, seqüestrado no dia 11 de setembro, que não colidiu com seu alvo devido à atitude dos passageiros de tomar o avião dos seqüestradores, o que resultou na colisão do avião em um campo na Pennsylvania. Outra vez, o diretor recebe um merecido reconhecimento por sua obra, que diferentemente do naturalismo alcançado por Gus Van Sant, tem seu grande mérito no torturante realismo das cenas aliado a uma decupagem extremamente afiada de Greengrass.

É claro que as tragédias ocorridas em solo estado-unidense inspiram diretores a realizar grandes obras - até mesmo os que não nasceram lá, caso de Greengrass. Temos então “pequenas” tragédias no microcosmo norte americano - todos sabemos que outras muito superiores acontecem todos os anos, inclusive no nosso país – mas grandes em orgulho e representação mundial. Claro que o número de mortos em 11 de setembro é extremamente significativo, porém o número de civis mortos na ocupação do Iraque já passou dos 68 mil, e ainda assim os iraquianos não são lembrados da mesma maneira que os 33 passageiros do Vôo United, ou mesmo os mais de mil mortos por armas de fogo no Rio de Janeiro no ano passado, e assim por diante. Outra vez, representação, orgulho, mídia, etc.

Os méritos autorais das obras de Gus Van Sant e Paul Greengras são explícitos para qualquer crítico e bom espectador. Mas é impossível não pensar que, se toda essa inspiração fosse também refletida em ativismo e preocupações práticas, não teríamos que lidar com acontecimentos como o do último 16 de março. Agora que Cho Seung-hui é o autor do maior assassinato em massa da história moderna dos Estados Unidos da América, seria no mínimo agradável não esperar por apenas um outro excelente filme sobre o ocorrido.

A imprensa norte-americana parece tratar o assunto como sempre: durante poucos dias explora o caso de maneira sensacionalista e discretamente sentimental, para logo depois enterrar o ocorrido, sem providências ou tentativas de prevenção. Talvez seja lugar comum culpar a mídia norte-americana, porém é ela quem alimenta a mente dos estudantes que praticam o “bullying” em seus colégios e universidades, é ela quem compartilha o poder no país mais influente do mundo, com um governo que não se preocupa com o desenvolvimento sem rédeas de uma indústria armada. Cho Seung-hui, um estudante estrangeiro com histórico psicológico mais do que preocupante, comprou legalmente as armas que usou em seu homicídio e suicídio, em uma loja ao lado da universidade.

Obviamente aconteceram massacres muito maiores ao redor do mundo nessa mesma época. Um carro-bomba matou mais de 200 na Bagdá ocupada por norte-americanos no dia 19 de abril - é só virar a página do jornal, ou ler nas manchetes em menos destaque, nos cadernos em que Cho está na capa. O caso é que muito da violência ao redor do globo é explicado por um contexto histórico (não que isto seja compreensível, ainda mais em um Iraque ilogicamente ocupado pelos EUA), diferentemente de um fator criado unicamente a partir da estrutura mídia-governo-medo em um país capitalista que não tem histórico de violência, se comparado a outros.

Cho Seung-hui, Eric e Dylan, e até mesmo os atentados de 11 de setembro, são criações dos próprios EUA, e de sua política liberal e sem controle de mídia e governo. O que teria incentivado Cho a enviar um manifesto multimídia para a NBC enquanto assassinava 32 pessoas? O que teria incentivado terroristas radicais a atentados suicidas em alvos de representação do governo norte-americano? São medidas extremas e sem razões racionais, mas que de alguma maneira estão crescendo com o tempo. Aqui nós chegamos à questão que mais atormenta: existem ou não motivos para esses atentados? Qualquer aluno está sujeito a ser um “loser” na sala de aula, o problema é que, em um país de medidas extremas, onde até mesmo a liberdade não tem limites, as conseqüências podem ser também extremas. A obsessão norte-americana por um país perfeito é descontrolada, e o país mais livre do mundo é responsável pelas maiores mortes sem motivo na história moderna. Iraque e Vietnam já começam a provar a tese.

Se o cinema norte-americano parece tentar entender isso, seja com Gus Van Sant tentando decifrar a mente de dois típicos estudantes “outsiders”, Paul Greengrass relatando o pânico real e assustador de alguns civis em um avião, ou ainda Michael Moore e suas tentativas de compreender a relação do país com as armas, o medo e a violência, em obras de extrema importância, parece que o trágico não passa mesmo de um apelo inútil. Não há qualquer mudança prática na mídia-imprensa ou no governo, nem uma maior preocupação com o assunto. Dificultar a entrada de estrangeiros no país ou a relação extra-territorial não resolve o problema. Praticar a liberdade com bom senso e agregar o mundo de maneira mais humana, deixando de lado as alienações e medos que acabam criando um ambiente de violência ainda mais perigoso e sem sentido, certamente traria maior resultado.

Arthur Tuoto é cineasta e crítico de cinema, trabalha com roteiro, video-arte e manipulação de imagens em geral. Mora em São Paulo, lidera o grupo Zerkalo Filmes (http://zerkalofilmes.blogspot.com) e mantém um canal no YouTube (http://www.youtube.com/arthurtuoto) com seu trabalho.