Eric Harris
e Dylan Klebold, os jovens assassinos do massacre da escola de
colombine, foram o apelo fundamental para Gus Van Sant salvar
sua carreira, realizando uma reflexão concisa sobre a estrutura
quase hierárquica das “high-schools” norte-americanas
e as mentes marginalizadas pela mídia/internet/entretenimento.
Gus também trouxe mundialmente em “Elefante”
(2003) um novo gênero de narrativa em seu cinema - que já
havia inaugurado timidamente em seu trabalho anterior, “Gerry”
(2002). “Elefante” é talvez uma obra ideal:
tem um apelo engajado discreto, mas de extrema importância,
uma direção instigante e quase sem precedentes no
país de origem do diretor.
O inglês Paul Greengrass obteve relativo sucesso com seu
primeiro longa de destaque, “Domingo Sangrento” (2002).
Nele, o diretor narra de maneira documental o massacre do dia
30 de janeiro na cidade de Derry, quando, após um simples
protesto pelos direitos humanos, tropas inglesas mataram, sem
motivo aparente, 13 pessoas. Depois de realizar, por um estúdio
norte-americano, “Supremacia Bourne” (2004), uma tentativa
falha e óbvia de reviver sua direção realista
em um filme para a indústria, surge o incrível “Vôo
United 93” (2006): de uma maneira absurdamente realista,
Paul Greengras narra em tempo quase real os acontecimentos do
vôo 93, seqüestrado no dia 11 de setembro, que não
colidiu com seu alvo devido à atitude dos passageiros de
tomar o avião dos seqüestradores, o que resultou na
colisão do avião em um campo na Pennsylvania. Outra
vez, o diretor recebe um merecido reconhecimento por sua obra,
que diferentemente do naturalismo alcançado por Gus Van
Sant, tem seu grande mérito no torturante realismo das
cenas aliado a uma decupagem extremamente afiada de Greengrass.
É claro que as tragédias ocorridas em solo estado-unidense
inspiram diretores a realizar grandes obras - até mesmo
os que não nasceram lá, caso de Greengrass. Temos
então “pequenas” tragédias no microcosmo
norte americano - todos sabemos que outras muito superiores acontecem
todos os anos, inclusive no nosso país – mas grandes
em orgulho e representação mundial. Claro que o
número de mortos em 11 de setembro é extremamente
significativo, porém o número de civis mortos na
ocupação do Iraque já passou dos 68 mil,
e ainda assim os iraquianos não são lembrados da
mesma maneira que os 33 passageiros do Vôo United, ou mesmo
os mais de mil mortos por armas de fogo no Rio de Janeiro no ano
passado, e assim por diante. Outra vez, representação,
orgulho, mídia, etc.
Os méritos autorais das obras de Gus Van Sant e Paul Greengras
são explícitos para qualquer crítico e bom
espectador. Mas é impossível não pensar que,
se toda essa inspiração fosse também refletida
em ativismo e preocupações práticas, não
teríamos que lidar com acontecimentos como o do último
16 de março. Agora que Cho Seung-hui é o autor do
maior assassinato em massa da história moderna dos Estados
Unidos da América, seria no mínimo agradável
não esperar por apenas um outro excelente filme sobre o
ocorrido.
A imprensa norte-americana parece tratar o assunto como sempre:
durante poucos dias explora o caso de maneira sensacionalista
e discretamente sentimental, para logo depois enterrar o ocorrido,
sem providências ou tentativas de prevenção.
Talvez seja lugar comum culpar a mídia norte-americana,
porém é ela quem alimenta a mente dos estudantes
que praticam o “bullying” em seus colégios
e universidades, é ela quem compartilha o poder no país
mais influente do mundo, com um governo que não se preocupa
com o desenvolvimento sem rédeas de uma indústria
armada. Cho Seung-hui, um estudante estrangeiro com histórico
psicológico mais do que preocupante, comprou legalmente
as armas que usou em seu homicídio e suicídio, em
uma loja ao lado da universidade.
Obviamente aconteceram massacres muito maiores ao redor do mundo
nessa mesma época. Um carro-bomba matou mais de 200 na
Bagdá ocupada por norte-americanos no dia 19 de abril -
é só virar a página do jornal, ou ler nas
manchetes em menos destaque, nos cadernos em que Cho está
na capa. O caso é que muito da violência ao redor
do globo é explicado por um contexto histórico (não
que isto seja compreensível, ainda mais em um Iraque ilogicamente
ocupado pelos EUA), diferentemente de um fator criado unicamente
a partir da estrutura mídia-governo-medo em um país
capitalista que não tem histórico de violência,
se comparado a outros.
Cho Seung-hui, Eric e Dylan, e até mesmo os atentados
de 11 de setembro, são criações dos próprios
EUA, e de sua política liberal e sem controle de mídia
e governo. O que teria incentivado Cho a enviar um manifesto multimídia
para a NBC enquanto assassinava 32 pessoas? O que teria incentivado
terroristas radicais a atentados suicidas em alvos de representação
do governo norte-americano? São medidas extremas e sem
razões racionais, mas que de alguma maneira estão
crescendo com o tempo. Aqui nós chegamos à questão
que mais atormenta: existem ou não motivos para esses atentados?
Qualquer aluno está sujeito a ser um “loser”
na sala de aula, o problema é que, em um país de
medidas extremas, onde até mesmo a liberdade não
tem limites, as conseqüências podem ser também
extremas. A obsessão norte-americana por um país
perfeito é descontrolada, e o país mais livre do
mundo é responsável pelas maiores mortes sem motivo
na história moderna. Iraque e Vietnam já começam
a provar a tese.